"O direito é criado pelo homem, é um produto tipicamente humano, um artifício sem entidade corporal, mas nem por isso menos real que as máquinas e os edifícios." - Gregorio Robles

10/08/2018

Palanque ou púlpito?


É inevitável: assim como a crise (crônica) da educação jurídica comentada no post anterior, há outros temas que obrigatoriamente exigem que voltemos à carga. Desta vez é a defesa da laicidade. Falo a respeito do debate de presidenciáveis da noite de ontem (quinta, 09/08) na Band e, em particular, das declarações do Cabo Daciolo e seu histriônico tom religioso, como se no púlpito estivesse.

Senhores: considero inadmissível que um candidato à presidência o seja à base de leituras bíblicas. Ao invés de propostas, Ezequiel e Malaquias. Não sou em absoluto avesso à religião -pelo contrário, faço questão de trazê-la comigo, ainda que sem faceta específica (agnóstico que sou), em um diálogo incessante com minha posição política marxista- mas não é possível misturar as coisas. Como qualquer indivíduo o agente público tem suas idiossincrasias e opções pessoais, e é compreensível, mesmo óbvio, que no processo político de tomada de escolhas seja pautado em maior ou menor grau por elas. Mas fiquemos nisso. Evocar profecias bíblicas, apostolados etc. sobre os destinos de um país evidencia uma mentalidade pré-Iluminista, vale dizer, medieval.

Quem me acompanha pelas redes sociais sabe de meu apreço pelo Islã, a ponto de desde 2015 manter um blog destinado ao estudo dessa religião e suas inúmeras vertentes e facetas. Aquele que se debruçar sobre o tema perceberá como a laicidade (coloquemos assim, a separação entre religião e política) também é um ponto delicadíssimo. E o Ocidente "ilustrado" deve ser coerente antes de apontar o dedo para os fundamentalistas "de lá". Que moral um candidato "servo de Deus" tem para criticar a teocracia iraniana ou, peguemos pesado, o Estado Islâmico? Em todos esses exemplos, que apenas se diferenciam na forma de se expressar e modus operativo, há a imposição de uma visão única que se considera dona da verdade. E isso é sempre ruim. Portanto: fé na igreja, no pensamento e nos bons exemplos diários (e indubitavelmente a religião é uma grande força nesse sentido), mas jamais na Constituição ou nas instituições públicas.

A foto do aludido candidato que ilustra o texto é de autoria de Kelly Fuzaro e foi extraída da matéria linkada acima.

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