"O direito é criado pelo homem, é um produto tipicamente humano, um artifício sem entidade corporal, mas nem por isso menos real que as máquinas e os edifícios." - Gregorio Robles

16/08/2019

Façamos hoje contra o saudosismo de amanhã


Hoje tomei um café com um velho advogado: velho no sentido temporal, bem entendido, porque em disposição e engajamento dá de dez em muitos jovens. O veterano lembrava nostalgicamente os tempos de "tribunal de calçada" -isto é, o intercâmbio entre advogados na porta das cortes, com suas enriquecedoras trocas de impressões e experiências- e, sobretudo, a época em que juízes recebiam os advogados.

Os doutores causídicos costumam encarar as serventias do fórum? Em caso afirmativo, sabem o quanto é difícil ser atendido por suas excelências. Há um verdadeiro filtro: primeiro o rapaz do cartório, com insistência vem alguém do gabinete -secretária ou estagiária- e, com ainda mais insistência, algum outro assessor mais antigo. O juiz propriamente fica guardadinho para o final, como um "chefe de fase" dos videogames. Isso caso esteja na vara. Se não, é tentar a sorte no dia seguinte.

Há um descompasso claro com a lei, não? Afinal diz a lei 8.906 que é direito do advogado "dirigir-se diretamente aos magistrados nas salas e gabinetes de trabalho, independentemente de horário previamente marcado ou outra condição, observando-se a ordem de chegada". Como digo em outro texto, nessa tensão dialética "lei x vida real" a lei nem sempre leva a melhor...

E que fazer senão lutar? Como em tudo na vida, também na Advocacia penso que temos um compromisso moral com as novas gerações. Há que aplainar o caminho dos que virão. Isso significa nos aferrarmos às prerrogativas da Advocacia, não aceitando um milímetro de retrocesso; longe de uma defesa "corporativista", se trata de uma defesa social e não é preciso em um blog jurídico como este "explicar" a importância dos advogados em um Estado dito Democrático de Direito.

Naturalizar certas coisas é permitir que caminhemos mansamente rumo à distopia. Quando, daqui a trinta anos, estaremos como o velho advogado do início do texto saudosos dos tempos de hoje, diante de um futuro -então presente- ainda muito mais deplorável.

A imagem do post é "Trois Avocats Causant" da célebre série de Honoré Daumier.

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