"O direito é criado pelo homem, é um produto tipicamente humano, um artifício sem entidade corporal, mas nem por isso menos real que as máquinas e os edifícios." - Gregorio Robles

23/05/2020

A reunião ministerial é um show de horrores

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Um show de horrores, definamos assim a bizarra reunião do ministério bolsonarista no dia 22 de abril, felizmente tornada pública pelo ministro Celso de Mello do STF. Felizmente porque garantiu a publicidade, princípio ínsito à Administração. Engraçado a propósito que muitos, quando da divulgação por Moro do grampo do diálogo entre Dilma e Lula, nada viram de mau e pelo contrário elogiaram o vazamento. Agora bradam, indignados, porque a privacidade do governo Bolsonaro foi violada. Essa hipocrisia salta aos olhos porque o grampo de diálogo privado entre Dilma e Lula, feito quando o período de autorização do tal grampo já estava interrompido (e portanto feito ilegalmente), feriu muito mais a privacidade do que a divulgação de vídeo de uma reunião ministerial, feita perante dezenas de pessoas (ao que pareceu, membros e staff  incluídos) e diante de câmeras! Pau que dá Chico dá em Francisco, pois sim? Por que agora que Bolsonaro está na berlinda há invasão da privacidade?

Deixemos os fariseus de lado. Superado o ponto, o que causa espécie no vídeo? Duas coisas, uma de ordem formal e outra de conteúdo. No que tange à forma, o grotesco linguajar, o baixíssimo modo de se expressar do alto escalão do Executivo federal, a começar pelo presidente da República. Um presidente preocupado que, data venia, lhe "empurrem a trozoba", que uma "OAB da vida" "encha o saco" do STF por uma "frescurada", reclamando que não pode "dar merda" em seu colo, da "putaria" que é o INMETRO, que "puta que pariu" mas o Weintraub não é racista ainda que possa ter falado "a maior merda do mundo", avisando que, verbis, "não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigo meu", o que ocorrerá caso não possa interferir na Polícia Federal- o mote da deserção de Moro, como é cediço. E por aí vai. Um governo de gentlemen.

Não sejamos puritanos: todos nós falamos palavrão. Salvo anjinhos impolutos, expressões pouco recomendáveis vêm aos lábios de gente como a gente com relativa frequência. Mas há a questão do decoro. Somos educados desde a infância, ao menos nós que tivemos educação familiar e escolar, que certas palavras não caem bem e que é preciso tomar cuidado com o linguajar. Muitos vão esquecendo essas lições ao adentrar a idade adulta mas, como quer que seja, somos instados pelas convenções sociais a ter determinada postura no trato com os outros indivíduos. Há a questão do ambiente, do contexto e do interlocutor. Nesse sentido, não consigo conceber reunião de trabalho, em qualquer instância -pública ou privada-, recheada de termos tão vulgares e baixos como a capitaneada por Jair Bolsonaro. Quadrilhas de milicianos podem se arranjar assim, verdade. Mas não a alta cúpula do Executivo federal de um país em uma reunião oficial. É forçoso reconhecer que Jair Bolsonaro ao longo de suas três décadas na Câmara sempre foi pautado pela grosseria e estupidez, de modo que há pouco espanto nisso. O espanto está é no porquê de um país ter permitido sua ascensão à presidência.

Tal é o aspecto formal. Não lhe valorizemos tanto. O grave segue sendo o conteúdo. Duvido alguém dizer, com sinceridade, que na famigerada reunião ministerial do dia 22 de abril (e como ela decerto houve mais e piores, invertendo a letra do Chico) houve um frutífero debate sobre os rumos do país. Nada disso. Foi um show de estupidez e ressentimento contra as instituições da República: a OAB, a imprensa, o Judiciário, o Congresso. Destilou-se racismo e preconceito, como Weintraub sobre os povos indígenas e ciganos; pregou-se a venda rápido da "porra do Banco do Brasil", via Guedes; pediu-se que se aproveitasse as atenções distraídas pela pandemia para que se desregulasse a legislação ambiental, via Salles; e assim por diante. Em verdade o conteúdo, mais do que qualquer outra coisa, deixa a nu a essência do bolsonarismo: é um governo de destruição, como o próprio Jair Bolsonaro já confessara. No andar da toada não deixará pedra sobre pedra, a menos que a sociedade reaja.

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