"O direito é criado pelo homem, é um produto tipicamente humano, um artifício sem entidade corporal, mas nem por isso menos real que as máquinas e os edifícios." - Gregorio Robles

19/06/2020

Queiroz, a mulher de César e os inocentes do Leblon

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"Onde está Queiroz?" é uma pergunta que entrou para o anedotário nacional há muitos meses. O folclórico Alexandre Frota foi além e, o que é plausível diante do contexto -rachadinhas de gabinete, milícias cariocas e outras amenidades-, perguntava-se onde está enterrado Queiroz. Pois estava vivíssimo e foi devidamente localizado em uma operação que, óbvio, foi criticada pelo amigão Jair Bolsonaro. Capturado vivo, aliás, diferentemente de outro amigo dos Bolsonaros, o famigerado Capitão Adriano, chefe do "Escritório do Crime" e morto de forma suspeitíssima na Bahia. A "Indesejada das gentes" do poema de Bandeira leva consigo segredos e mistérios, para sobressalto de uns e alívio de outros.

Não há PROCON para a política. Depositado o voto na urna, já era; não se faz o estorno. Não é possível se queixar ao bispo (eu sei, bispos de diversas denominações se imiscuem com volúpia na política nacional, mas me refiro ao velho ditado). Ainda que possua elementos de democracia participativa (direta), nosso formato é essencialmente representativo (indireto). Uma vez eleito, nada impede que o candidato dê um giro- e uma banana para a pauta que lhe elegeu. Caso se sinta lesado quanto às promessas de campanha, cabe ao cidadão fazer a devida pressão política sobre seu candidato. O peso disso variará conforme o grau de engajamento do eleitorado, mas não se pode ir muito além: no nosso ordenamento não existe a figura do recall. Espera-se exaurir o mandato do político 171 -caso não seja reeleito!- e escolher melhor da próxima vez.

Penso nisso porque decepcionados com o bolsonarismo contam-se às carradas. Aqueles que caíram no papo da crítica da velha política, do "contra tudo que está aí". É incrível que essa retórica tenha colado vindo de quem veio: um sujeito há três décadas no parlamento e que passara por quase uma dezena de partidos diferentes. O que exatamente de novo Bolsonaro representava? Mas houve quem engolisse. O candidato dos "homens de bem" e dos "bons costumes" revela-se um fariseu, um sepulcro caiado. Isso não é novo. Estou falando aqui, naturalmente, daqueles de boa-fé. Excluo os abertamente fascistas, aqueles que deliberadamente queriam um candidato truculento, misógino, homofóbico, apologista da tortura e fanboy da ditadura civil-militar de 1964. Esses não podem dizer que se iludiram. O bolsonarismo lhes dá exatamente aquilo com o qual se afinizam, encorpado pelo terraplanismo olavista. Que caldo indigesto! Não por acaso o país vai ladeira abaixo.

À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta, não dizem? O discurso precisa ser acompanhado de seu correspondente fático. Caso contrário é apenas gogó, retórica vazia e demagógica para enganar incautos. Estamos carecas de saber que discursos moralistas não raro escondem as piores intenções. Bukowski escreveu com maestria: "Os que pregam Deus/ Precisam de Deus/ Os que pregam a paz/ Não têm paz./ Os que pregam o amor/ Não têm amor/ Cuidado com os pregadores/ Cuidado com os entendidos" ("A índole da multidão", tradução de Fernando Koproski). Ideias que não correspondem aos fatos. Caíram na lábia da sereia bolsonarista, a da "nova política" fedendo a porões de 1964. Inocentes do Leblon que pensaram que bastava derrotar o PT a todo custo.

Não quero "aliviar a barra" da pequena-burguesia lacerdista iludida. Apenas aponto que mesmo de forma bem intencionada é fácil ser engrupido pelo discurso moralista, anticorrupção, contra os privilégios etc. Ocorre que de boas intenções o inferno está cheio. Há uma fronteira tênue a partir da qual o inocente útil se torna um militante de algo mais sinistro. É de mal a pior se acrescentarmos -e em regra desemboca nisso- a retórica de ódio "nós contra eles", a aversão ao diferente, a cultura armamentista, o obscurantismo e a rejeição da ciência. Imaginem isso sendo ruminado pela classe média ressentida. Eis o caldeirão fascista par excellence. Muito já se escreveu sobre isso e me reporto a Eco e Trotsky.

Escrevi aqui no blog que o Brasil terá dado mostra de enorme maturidade institucional caso passe incólume pelo bolsonarismo. Por mais que sejamos críticos da república liberal-burguesa, e eu como marxista não posso deixar de sê-lo, não podemos permitir o retrocesso civilizatório. Somos um país de modernidade tardia e a ascensão do bolsonarismo é sintoma disso. Mas não podemos ceder à letargia do pessimismo. Eles passarão, nós passarinho, não é, Quintana?

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