"O direito é criado pelo homem, é um produto tipicamente humano, um artifício sem entidade corporal, mas nem por isso menos real que as máquinas e os edifícios." - Gregorio Robles

20/10/2020

Da responsabilidade social do esporte

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Sobre o caso Robinho — já há condenação a nove anos em primeiro grau na justiça italiana, pendente de recurso. Não me detive a fundo e os detalhes que conheço foram pincelados na mídia. Coisa grave e deplorável, a ser devidamente apurada ao longo do devido processo legal. A presunção de inocência vale até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória, goste-se ou não, então fiquemos assim.

Sem entrar portanto nos meandros do caso concreto, gostaria de focar a atenção em um ponto: o da profunda indigência cultural do universo futebolístico. Por cultural não me refiro à educação formal, ler quinhentos livros e conhecer Machado de Assis. Falo dos aspectos civilizatórios, da introjeção de noções de direitos humanos, de solidariedade social etc. Dá a impressão de que nada disso existe. E de uma ponta a outra na cadeia (sem trocadilho), pois o mau exemplo vem das presidências dos clubes. Vide, para ficarmos em um exemplo, a postura da diretoria do Flamengo em relação à garotada vitimada no "Ninho do Urubu". Vigora o desrespeito, a impunidade, o "se dar bem".

Há uma coisa aqui e Marx pode nos ajudar. O filósofo alemão falava em materialismo histórico (e dialético), isto é, o fato das relações de base (concretas, materiais, a vida cotidiana) influenciarem a superestrutura da sociedade (ou seja, sua cultura, suas ideias, seu modo de pensar e encarar o mundo). O Brasil é um país de modernidade tardia. Atrasado. E esse fato vai influenciar os demais fatores da vida social, o futebol inclusive. Trocando em miúdos: a indigência cultural no futebol reflete a indulgência cultural da sociedade brasileira como um todo. Misoginia, homofobia e machismo, por exemplo, antes de se expressar no futebol já possuem raízes profundas no tecido social. Em alguns ambientes isso se torna mais evidente e chocante, mas sempre esteve lá.

Neste ponto preciso esclarecer algumas coisas para não dar margem a equívocos. Primeiro, não se trata aqui de algum "fatalismo" histórico (tipo o Brasil é assim, e não tem jeito). Ao contrário: como disse o mesmo Marx, ainda que subordinados às condições existentes os homens fazem a sua história. Nada é definitivo, tudo pode mudar. Segundo, que ninguém veja na denúncia da indigência cultural do universo futebolístico alguma espécie de "elitismo" em relação ao seu público e seus atletas. Na verdade se trata de reconhecer um problema e assim buscar condições para melhorar. A sociedade como um todo agradece.

Também deixemos longe daqui as generalizações. Há inúmeros clubes pelo país que mantêm programas sociais, com formação educacional, de seus jovens atletas. É exatamente assim que deve ser. O futebol é muito mais que um esporte, um jogo. Tem uma dimensão econômica e social inaudita. E como tal possui sua parcela de responsabilidade sobre as coisas que acontecem na sociedade, assim como as igrejas, a escola, os partidos políticos etc. Precisamos enxergar o esporte como um dos inúmeros agentes da vida social.

Ah, e a defesa cafajeste de Robinho. Recorreu ao jargão bíblico dos inocentes perseguidos. Ancorou-se em Jair Bolsonaro. Culpou a imprensa, o feminismo e assim por diante. Isso tudo é muito sintomático. A indigência cultural aparece em cada um desses elementos. É a mentalidade do jogador de futebol característico. Jovens milionários em seu complexo de onipotência. Mais uma vez, não precisa ser assim — mas mídia e público precisam fazer sua parte e parar de paparicar essa turma.

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