"O direito é criado pelo homem, é um produto tipicamente humano, um artifício sem entidade corporal, mas nem por isso menos real que as máquinas e os edifícios." - Gregorio Robles

28/01/2021

Isso de Machado de Assis ser ou não para adolescentes

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Vejo mais uma polêmica no Twitter: desta vez o influencer Felipe Neto "causa" novamente e afirma que Álvares de Azevedo e Machado de Assis, dois pesos-pesados de nossa literatura, não são para adolescentes. Segundo Felipe, forçar a leitura de autores desse jaez "gera jovens que acham literatura um saco". O tuíte original pode ser visto aqui.

A treta estava armada, naturalmente, com posições contra e a favor. Acho positivo que se discuta esse e outros temas. A internet perderia muito de sua relevância se deixasse de ser um dos espaços do debate público. Um dos espaços, claro — nada substitui a universidade, o sindicato, a associação de moradores etc. A discussão democrática, para que floresça, precisa de mais e mais ambientes. A internet tem tido peso incomensurável nesse sentido. É claro que há muita estupidez, e não por acaso Umberto Eco dizia que a rede deu voz a uma legião de imbecis, mas são efeitos colaterais inevitáveis. Não me refiro a discurso de ódio e fake news. Isso, ao contrário, mina a democracia. E portanto deve ser cerceado, sem que os canalhas reclamem hipocritamente de ofensa à "liberdade de expressão".

Quanto a Álvares de Azevedo e Machado de Assis, ou ainda José de Alencar ou qualquer outro luminar de nossas letras do séc. XIX. Concordo com Felipe Neto. Não com a taxatividade do youtuber: ele diz que tais autores "não são para adolescentes". Podem ser, claro. Caso o adolescente queira lê-los. Com 16 anos eu lia os parnasianos, Bilac era meu favorito, e antes mesmo já lera — ainda que nem sempre na íntegra mas em todo caso em contato físico direto com os volumes — Virgílio, Dante, Poe. E estou longe de ter sido um prodígio ou aluno brilhante. Simplesmente gostava, como gosto até hoje. Pessoas têm aptidões diferentes, que dirá na adolescência. 

Evidentemente não quero me meter aqui nos projetos pedagógicos que competem aos educadores. Para gostar antes de tudo é preciso conhecer, e a realidade nos grotões do Brasil profundo não favorece o contato com os livros desde os primeiros anos, que é como deveria ser. A juventude pobre é a principal vítima disso. É preciso apresentar o mundo das letras. E aqui está o ponto: esse primeiro contato deve ser agradável. Caso contrário traumatiza. Os aludidos clássicos, com todo respeito, são maçantes. Leitores maduros vão concordar comigo. Que impressão terá deles a garotada? Ler é um saco. Coisa de velho. E bora pro Youtube.

É muito romântico dizer que todos devam conhecer Machado de Assis. Em outra realidade, idealizada, talvez fosse assim. Mas me parece que há formas mais eficazes, e eu diria mais modernas, de apresentar a literatura à garotada da escola. Novamente não é minha intenção dar palpite no trabalho dos mestres. Mas uma pequena provocação: devo muito do início de minha formação intelectual, por volta dos 8 anos de idade, às histórias em quadrinhos. Falei disso em outro blog, a propósito de uma versão que escrevi para um poema de Robert Frost. Infelizmente pouquíssimos professores meus utilizaram o recurso ao longo de meus anos de escola. Por outro lado, me empurravam José de Alencar. Achei um saco. Continuo achando.
 

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