"O direito é criado pelo homem, é um produto tipicamente humano, um artifício sem entidade corporal, mas nem por isso menos real que as máquinas e os edifícios." - Gregorio Robles

03/02/2021

Baleia afunda. Mais fôlego para o bolsonarismo.

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É verdade que com o desembarque do DEM a vitória de Arthur Lira parecia mais definida. Mas o resultado, ao abrir das urnas, foi acachapante: 302 votos para Lira e míseros 145 para Baleia Rossi, candidato da frente ampla construída por Rodrigo Maia. Isto é, Lira teve mais que o dobro dos votos de Baleia. Houve outros candidatos menos cotados que não mencionarei, com exceção do PSOL da veneranda Luiza Erundina, que em seu cacoete de seita purista se recusou a participar da dita frente ampla com os demais partidos do chamado campo progressista. Lênin chamava isso, pejorativamente, de "esquerdismo", uma "doença infantil".

A que se deve a vitória de Arthur Lira? Não foi mérito da articulação política do bolsonarismo, decerto. O governo abriu os cofres do vil metal, real ou figurado, na mercancia velha de guerra das promessas de cargos e emendas a parlamentares. E esse é o motor do centrão, o ganho material — e não o trato programático e principista com a res publica. O PP desse mesmo Arthur Lira esteve na base de todos os governos desde sua fundação em 1995, de FHC a Bolsonaro, passando pelos governos petistas e Temer. Exatamente o que esse partido defende? Qual sua pauta? Nenhuma. Só a sua própria.

Com um aliado na presidência da Câmara, Jair poderá dormir tranquilo — a pautação do impeachment será miragem distante. Também terá muito mais facilidades na tramitação dos projetos de seu interesse. Não que seja papel da Câmara dificultar as coisas para o Executivo. Os Poderes são harmônicos entre si. Trabalham juntos. Mas pior que um parlamento hostil é um parlamento subserviente: é por isso que além de harmônicos são também independentes, isso tudo na redação do art. 2º da Carta. Com Arthur Lira veremos um claro baque nisso. Outro cenário, também indigno, seria o do Executivo refém da glutonice do Centrão. Nesse sentido, há uma relação parasitária entre Bolsonaro e Lira. 

Sobre Rodrigo Maia, o grande derrotado. Não mostrou ascendência nem no próprio partido, o DEM, que se juntou ao venais apesar de jurar não ser base do governo. Pessoalmente nunca vi Maia como grande articulador político e muito menos como estadista. Mostrou uma pusilanimidade incrível ao longo dos últimos tempos, rebatendo as incontáveis barbaridades de Bolsonaro com meras "notas de repúdio" e se recusando a colocar o impeachment na mesa. Ao que consta conduzia as sessões de forma não muito regimental, tocando as coisas conforme seus próprios interesses, e me lembro de um vídeo em que Glauber Braga (PSOL-RJ) chama-lhe de "micro-ditador" em plenário. Em todo caso é um mérito de Maia, a menos que digamos que não é mais que a obrigação, ter ficado no campo oposto ao do negacionismo, do terraplanismo e da barbárie bolsonarista. 

E um comentário sobre os partidos que compuseram a frente ampla arquitetada (em vão, como vimos) por Maia. Vi muitos esquerdistas infantis, daqueles que cito no primeiro parágrafo, debochando de PT, PCdoB, PSB e PDT por causa do fiasco. Teriam emblocado com Maia à toa. Mas eu vejo, ao contrário, que esses partidos, apesar de representarem uma esquerda reformista e suscetível de todas as críticas, mostraram respeitabilidade. Primeiro porque o bloco em torno de Baleia Rossi tinha como "liga" a defesa da pauta democrática, e não nenhuma plataforma programática. Portanto se aliar a Maia, para a presente eleição à Câmara, não significava em absoluto se alinhar à plataforma econômica de Maia. Os esquerdistas infantis não conseguem perceber a diferença. E outra: o fiasco se deu porque os venais pularam fora, com menção desonrosa para DEM e PSDB. Os citados partidos da esquerda reformista não. Continuaram até o fim, vale dizer, não participaram do butim do vil metal que alimenta o centrão. É um mérito, a menos que também aqui lembremos que não é mais que a obrigação. 

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